Fernando Diniz desistiu de sonhar
Não é por causa da eliminação traumática de ontem na Libertadores. Nem tem a ver apenas com o péssimo momento no Brasileirão. É uma soma de tudo. Um sentimento. Fernando Diniz desistiu de sonhar. Não é mera falta de material humano no Corinthians. Diniz abriu mão da fantasia. E virou só mais um técnico de […]
Não é por causa da eliminação traumática de ontem na Libertadores. Nem tem a ver apenas com o péssimo momento no Brasileirão. É uma soma de tudo. Um sentimento. Fernando Diniz desistiu de sonhar.
Não é mera falta de material humano no Corinthians. Diniz abriu mão da fantasia. E virou só mais um técnico de altos salários, futebol pragmático, jogando por uma bolinha. Ele, que um dia foi considerado radical. Um extremista. Quase um selvagem.
O que acontece não é uma questão de dados ou lógica. Nem de “gols esperados”, “domínios orientados” ou desenhos em pranchetas. Não há modelo matemático ou algoritmo. Não há razão que responda. É uma questão humana mais profunda. Algo espiritual. Quase místico. Diniz está resignado.
Sumiram as saídas de bola criativas, movimentações surpreendentes, trocas de posição. Desistiu de qualquer inovação. Se eu não soubesse quem era o técnico deste Corinthians e me dissessem que era Dorival Júnior ou Roger Machado, não contestaria. Poderia ser qualquer um.
Defesa forte, transição rápida, bola para os pontas, salários de R$ 1,5 milhão por mês. Demissão entre seis meses e um ano. O pacote completo.
O antigo Diniz teve seus sonhos esmagados pelo moinho do futebol brasileiro. A impressão é de que, se Ricardinho descesse da cabine da Globo e comandasse o time contra os argentinos, pouco mudaria na essência do que foi apresentado em campo.
Até as orientações na área técnica mudaram. Ninguém esperava que Diniz permanecesse como no início. Era cobrado por reduzir seus excessos. Mas ele foi além. Desistiu de vez de cobrar atletas mimados e milionários. Também, quem aguenta?
A questão é que antes, para o bem ou para o mal, havia expectativa quando um time de Diniz entrava em campo. Havia certo tipo de promessa que ia além da vitória ou da derrota. Havia uma ilusão.
Talvez este Corinthians nem jogue tão mal assim. Talvez os dados me desmintam. Quem liga? Outro dia, li que Hulk participou de todos os gols do Fluminense nas quartas de final da Libertadores. Os números, dizem, não mentem. E, no entanto, vendo Hulk jogar contra o Platense, na Argentina, sentimos pena. É uma sombra.
Convivi com Fernando Diniz por um semestre. Há muito tempo. Em outra vida. Havia um estranho brilho em seu olhar. E pouco importaria se eu nunca o tivesse visto antes. Não é questão de dados ou lógica. É um sentimento. O brilho sumiu. Fernando Diniz desistiu de sonhar.

