Novo diretor do Athletico revela sonho de Petraglia: “Conseguiremos realizar”

O argentino Jorge Raffo, que assumiu como diretor de formação do Athletico no início de março, falou pela primeira vez desde a chegada ao clube. Ele deu entrevista para os canais oficiais do Furacão e revelou o sonho do presidente Mario Celso Petraglia em ter um time formado inteiramente por jogadores das categorias de base. […]

Abr 8, 2026 - 17:30
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Novo diretor do Athletico revela sonho de Petraglia: “Conseguiremos realizar”

O argentino Jorge Raffo, que assumiu como diretor de formação do Athletico no início de março, falou pela primeira vez desde a chegada ao clube. Ele deu entrevista para os canais oficiais do Furacão e revelou o sonho do presidente Mario Celso Petraglia em ter um time formado inteiramente por jogadores das categorias de base.

“A pessoa que foi capaz de escolher as pessoas certas para nos colocar no mesmo caminho, guiados por ele, claro. Essa é uma das virtudes que este presidente tem, para trazer o clube de onde estava para onde está hoje. Tenho certeza que, se conseguirmos continuar nesse processo de todos termos a mesma visão, missão, ambição, os mesmos valores e, sobretudo, as mesmas estratégias para garantir que os jovens jogadores cheguem à Série A, tenho certeza que, em breve, conseguiremos realizar o sonho do presidente de ter um time 100%, ou se não 100%, pelo menos 90% formados localmente”, revelou Raffo.

O técnico João Correia, demitido do time sub-20, já tinha citado essa vontade do dirigente, mas sem citar a porcentagem desejada por Petraglia.

Com mais de 30 anos de experiência, Raffo foi escolhido a dedo pelo presidente do Athletico por ter tido passagens por diferentes e importantes escolas do futebol mundial, como Boca Juniors, Barcelona, Shakhtar Donetsk e Manchester City. Com esse currículo e o potencial do Athletico na formação, a ideia é consolidar o CT do Caju como a melhor academia do futebol brasileiro e uma das melhores do mundo.

Com mais de um mês no Furacão, Jorge Raffo ainda está morando no CT do Caju. Com isso, ele mantém uma rotina perto e consegue dar os primeiros passos no trabalho, voltado principalmente aos treinadores das categorias de base.

“Acredito que hoje precisamos dar um salto de qualidade para que todo o clube esteja focado em entender que a formação do Athletico, por meio da visão do seu presidente, e que a intenção é instalar o nome e a marca do Athletico através da formação de grandes jogadores. É um trabalho árduo, mas vamos tentar fazer da maneira mais rápida possível. Queremos que seja um orgulho para todos que trabalham nas categorias de base e no clube, construir e transformar a base do Athletico em uma das mais importantes do país e depois levar esse talento ao mundo”, completou.

Jorge Raffo, diretor da base do Athletico. (Foto: Luis Miguel Ferreira/Athletico).

Qual o objetivo do trabalho de Jorge Raffo?

Raffo explicou como enxerga o processo de formação, dividindo o processo em etapas. A primeira é a chegada dos atletas ao clube, que chama de captação ou scout. Depois é a da formação, que o argentino tem maior foco já que é onde se estimula o jogador diariamente. Além disso, também aponta que existe o momento da promoção e consolidação, que se refere aos jovens subirem de categoria e que considera como o mais difícil.

Nesse contexto, um dos principais objetivos é fazer com que exista uma metodologia entre os treinadores de todas as categorias de formação, que seja identificada com a cultura histórica do Athletico e ajude no desenvolvimento dos atletas.


“Estamos trabalhando em conjunto com os treinadores, para ter um método ou uma filosofia de formação que esteja dentro do contexto genético do Furacão, de ser muito agressivo com a bola, no controle de jogo e, em relação à perda da posse de bola, deixar a pele para recuperá-la. Então vamos tentar e conseguir pouco a pouco alcançar que as diferentes equipes se tornem motivo de orgulho e haja identificação por parte de todos no clube e de todos os torcedores que possam seguir a instituição em qualquer parte do mundo”, apontou Jorge Raffo.


Diretor do Athletico revela ter se emocionado com vitória no Atletiba 400

Em dois momentos da entrevista, Jorge Raffo citou o ambiente que presenciou no clássico entre Athletico e Coritiba de número 400. A vitória rubro-negra encerrou o maior jejum deste século e contou com 31.885 pessoas na Arena da Baixada.

“A torcida do Furacão que me faz sentir o futebol por causa da enorme paixão que tem, que me faz lembrar quando eu ia, desde criança, em um estádio emblemático como era La Bombonera, e comparar ao que eu vivi na vitória do Athletico sobre o Coritiba. Digo isso de coração. Antes, durante e depois da partida, me fez lembrar da minha origem no Boca Juniors. Tudo isso me motiva muito a dar meu máximo”, declarou.

Além disso, em outra ocasião, relembrou o gol do meia Dudu Kogitski, uma das revelações da base rubro-negra e que vem se consolidando como titular no elenco principal do Furacão nesta temporada.


“Valorizo um futebol bem jogado e agressivo na recuperação da bola. Sem dúvida, futebol, pra mim, é arte porque dizem que arte é tudo aquilo que emociona. Se tem algo que me emociona muito, é ver uma grande jogada de um jogador, um gol, como eu comemorei no último clássico com o Coritiba, onde me senti como um torcedor e senti a emoção de estar no Caldeirão em um momento importantíssimo para o clube como foi ganhar o último dérbi”, completou.


Veja outros trechos da entrevista com Jorge Raffo, o novo chefão da base do Athletico

Ele é uma espécie de professor dos professores (técnicos)

Minha paixão é o futebol, mas minha vocação é o ensino, a capacidade de ensinar. Tive a sorte de passar por grandes escolas de formação, como o Boca Juniors, o Barcelona, na Espanha, e o Manchester City. Venho com todo o entusiasmo de trabalhar em uma instituição incrível, com uma cidade linda e um grupo de treinadores muito motivados a poder fazer um projeto vencedor.

“Podemos ter a melhor academia de produção de jogadores do Brasil, que é reconhecido por grandes talentos e que são admirados por muita gente do meu país”.

Quando mencionei isso para muitos amigos que tenho em Barcelona e Manchester, todos concordaram que é um clube fantástico.

Contato com Odair

Me encontrei com muita boa pré-disposição por parte de todos os treinadores, especialmente a humanidade e humildade do nosso treinador Odair. Encontrei com um clube inteiro focado em realizar uma grande transformação na formação de jogadores nos próximos quatro anos.

Entendendo o contexto do futebol mundial, que 60% dos clubes europeus planejam para 2030 que 40% dos jogadores do time principal venham das categorias de base, isso já define um caminho para todos nós em relação ao que temos que fazer nos próximos quatro anos.

Quem forma precisa conhecer o futebol

Um famoso treinador, muito amigo meu, Flaco Menotti, um grande admirador do futebol brasileiro, eu lhe perguntei quem considerava que era o melhor treinador. Se era aquele que desenhava melhor o exercício ou aquele intervinha, corrigia e parava o exercício para poder corrigir. Fizemos um teste, uma história, que foi a possibilidade de assistir a uma partida juntos. Ele disse ‘ok, vamos assistir por 10 minutos. Aos 10, me diz todos os erros que você vê e eu te digo os erros que eu vejo’. Eu vi cinco erros, ele viu cerca de 500. Então foi uma demonstração de que você precisa saber muito sobre o jogo para ser um verdadeiro formador.

Entenda tudo: o que Jorge Raffo avaliou e o que faz no Athletico

Uma academia de formação tem seis pontos para se analisar, que tive a sorte de poder fazer durante a primeira etapa, quando passei três dias com o presidente e pudemos visitar e conversar profundamente sobre toda a estrutura do clube.

A primeira coisa a analisar é a organização, e encontrei uma organização muito bem estruturada, a nível do que dizia, do departamento de alta performance, todo o processo médico, com tecnologia que diria que o Athletico está no mesmo nível dos melhores clubes do mundo.

A segunda parte é a logística. Quando falamos de infraestrutura, estamos falando de talvez um dos cinco melhores CTs não somente do Brasil, mas em toda a América do Sul.

Estou baseando essa comparação especificamente em três questões que são muito importantes, na minha opinião, para desenvolver jogadores diferentes. A primeira é o conceito. O Furacão precisa redesenhar seu conceito de formação para focar no biotipo de jogador, no DNA do jogador, que estamos buscando, para que possam realmente chegar à seleção e que depois possa ter uma projeção internacional. Minha intenção é que, ainda que não estivessem vestindo a camisa do Furacão, todos pudéssemos reconhecer que é um time do Athletico. Para isso, a agressividade na recuperação da bola, a organização, a qualidade individual, que encontrei em muitos jogadores que o Athletico tem hoje, isso realmente me surpreendeu positivamente.

Acho que hoje, no Brasil, e nos jogadores que o clube tem hoje, permanece algo que desapareceu em muitos países desenvolvidos, que é o futebol espotâneo, o futebol de rua. E a segunda é a competição, mas não a competitividade em termos de ganhar ou perder, a competição das pessoas, o nível de excelência dos profissionais. Nesse sentido, encontrei profissionais de alta qualidade. Acredito que minha missão, principalmente com os treinadores e com os diferentes processos é uni-los em um projeto comum, para que não trabalhemos isoladamente, mas sim que todos tenhamos um processo que vá do fácil ao difícil, do simples ao complexo. Não é a mesma coisa treinar um garoto de 13 e 14 anos e não pode ter a mesma metodologia, nem as mesmas correções, de um menino de 20 anos. A aplicação de diferentes métodos e diferentes políticas esportivas, com cada equipe, sub-20, sub-17, 16, 15 e 14, me permite arriscar a dizer que, em curto prazo de tempo, teremos mudanças muito significativas para nos aproximarmos cada vez mais daquele sonho que sempre existiu pela combinação da qualidade sul-americana e com os métodos europeus.

O futebol de 2030 vai ser um futebol mais complexo, com mais transições, menos espaço, que exigirá dos jogadores decisões mais rápidas. Jogadores que terão que trabalhar muito mais em transições. Portanto, os jogadores que têm hoje 12, 13, 14, 15 e 16 anos, terão que ser preparados para esse futebol mais complexo. Mas chegaremos lá com o enorme trabalho que estamos desenvolvendo, com as bases que estamos estruturando, vamos consolidar isso em breve.

Acredito que, quando um jogador é formado na base, ele realmente precisa adquirir um conhecimento amplo. Se eu tenho um zagueiro, ele precisa aprender a jogar em linha de quatro e linha de três, a jogar o que se espera de um jogador em 2030, que é marcar indivualmente, pressionar alto, jogar a 60 metros do gol porque no Furacão é muito difícil de jogar. O Furacão joga a 60 metros de distância do seu gol de defesa, pressionando, sendo agressivos e assim por diante.

Então, preciso dar ao jogador um conceito integral porque é possível que, durante sua carreira, ele tenha diferentes treinadores e sistemas e ele já precisa ter conhecimento. É como ir à universidade e aprender toda a carreira de Medicina. Depois ele pode se especializar, mas precisa aprender toda a carreira.

Por último, temos o processo de captação, juntamente com diferentes áreas do clube. Estamos definindo qual é o perfil para cada posição, algo que poucos clubes têm e o clube está avançado nesse processo. Temos a visão de desenvolver o melhor projeto, que nos permita levar jogadores de 14 a 20 anos, para jogar na Série A com um projeto consolidado, profissional e cientificamente comprovado.

Eu considero que, na formação, é fundamental criar jogadores vencedores. Todos precisam saber que quando você veste a camisa do Athletico, você tem que vencer porque a torcida vai exigir isso, necessitam isso. Mas vencer como valor, não como fim. Ganhar como meio. Um jogador precisa aprender a vencer e nós devemos ensiná-lo como fazer para vencer, entendendo que é um clube importante.

O que a torcida pode esperar

É uma emoção profunda pra mim. E um agradecimento ao presidente e a todos os envolvidos na minha escolha. É um grande desafio, pois provavelmente serei o primeiro ou segundo argentino a chegar ao cargo de diretor de formação e não quero perder a essência do jogador brasileiro. Quero contribuir com tudo que posso para formar jogadores completos e ser capaz de identificar o sonho de cada jogador, seu potencial e o que eles precisam corrigir para que tenham a oportunidade de jogar na Série A.

A enorme motivação que o presidente me passou, quando ele tomou a decisão de me escolher, para formar a melhor academia do mundo para a formação de jogadores jovens. Isso me deu a motivação para dar 100% e ajudar o Athletico a alcançar patamar ainda maiores.

Experiências e jogadores brasileiros com quem já trabalhou

Estive por seis anos no Boca Juniors e mais de 100 jogadores passaram pela Primeira Divisão nestes anos. Tive a oportunidade de ir à Europa, onde tive o difícil caminho de me adaptar a uma cultura completamente diferente, como é a ucraniana. Eu acredito que o diretor de formação deve entender o contexto no qual se encontra e encontrar as metodologias, as formas de trabalho, para convencer os treinadores, que são os que estão diariamente com os meninos, para encontrar uma sucessão de jogadores em cada posições para o clube possa utilizar esses jogadores na equipe principal.

A enorme conexão do futebol brasileiro com o Shakhtar me permitiu conhecer profundamente grandíssimos talentos, como Marlos, Taison, Ismaily, Fred e Malcolm. Muitos jogadores com quem tive a oportunidade de conviver e entender melhor a filosofia.

Por isso, quando tive a sorte de estar no Elche, também como diretor, no futebol espanhol, com outro contexto, toda a experiência me permitiu chegar ao Manchester City, nomeado como chefe da metodologia de formação de jovens.

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