Produção de lúpulo diversifica rota turística em São José dos Pinhais
Em um local conhecido popularmente como Rota Turística do Caminho do Vinho, em São José dos Pinhais, surge um cultivo que foge à “regra”: dois amigos decidiram inovar ao plantar lúpulo, um dos principais ingredientes da cerveja. A iniciativa é incomum não apenas por estar inserida em uma rota tradicionalmente voltada ao vinho, mas também porque o cultivo ainda não é popular no Paraná, nem mesmo no Brasil. Segundo dados mais recentes da Associação Brasileira de Lúpulo (Aprolúpulo), referentes a 2024, o país conta com cerca de 109 produtores distribuídos em 13 estados. Mesmo com o recorde de produção de 81,3 toneladas, o Brasil ainda depende da importação de mais de 90% do lúpulo que consome. A história dos produtores são-joseenses é curiosa, Paulo Roberto de Carvalho Júnior e Fernando Ary da Silva nunca haviam tido contato com a agricultura e iniciaram justamente com uma cultura que apresenta mais desafios do que cultivos tradicionais. A ideia surgiu em 2020, quando Paulo assistiu a um episódio do programa Globo Rural em um domingo de manhã. “Eu sempre acordo cedo para assistir ao programa. Quando vi a reportagem, achei curioso e descobri a escassez da produção no Brasil. Aquilo me chamou a atenção e comecei a pesquisar sobre o assunto”, afirmou Paulo. Após a pesquisa inicial, o projeto ficou engavetado por um tempo, até um jantar na casa do amigo Fernando, quando Paulo comentou, de forma despretensiosa, sobre o cultivo e o que havia descoberto. Uma semana depois, Fernando entrou em contato propondo a criação de uma sociedade para iniciar o cultivo. “Nós começamos em 2024, montando a estrutura do campo e preparando a terra. Também buscamos orientação técnica de um agrônomo especializado, pois tivemos que aprender tudo do zero”, relatou Fernando. Paulo Roberto, à direita, e Fernando Ary, à esquerda. Fabio Hirayama/Prefeitura Municipal de São José dos Pinhais. Os sócios já investiram aproximadamente meio milhão de reais na estrutura que, para o beneficiamento do lúpulo, conta com secadora, peletizadora, embaladora a vácuo com atmosfera modificada (injeção de nitrogênio) e uma câmera fria muito utilizada no período de colheita e conservação do produto. Além disso, há também sistema de suplementação de luz solar, como explica Stéfano Gomes Kretzer, agrônomo especialista no cultivo de lúpulo e responsável pela orientação técnica da propriedade. “O cultivo de lúpulo nessa localidade só é possível e viável financeiramente por conta da suplementação luminosa, uma estrutura com lâmpadas que complementam a necessidade de luz solar de aproximadamente 16 à 17 horas diárias, que apenas com luz natural não é possível já que só dura por volta de 12 horas em um bom dia” informou o agrônomo. Estrutura de suplementação luminosa da propriedade. Arquivo pessoal Paulo Roberto e Fernando Ary. Durante o processo, os sócios enfrentaram dificuldades, como a aquisição de equipamentos pouco comuns no Brasil e o próprio processo de secagem. Isso porque a qualidade do lúpulo está diretamente ligada à lupulina, composto presente na flor que concentra óleos essenciais responsáveis pelo amargor e aroma da cerveja. “O processo de secagem é bem complexo. Na nossa primeira safra, ainda não tínhamos secador próprio, então utilizamos o de um conhecido que trabalhava com camomila. Por ser um espaço de terceiros, não conseguimos controlar a temperatura o tempo todo, o que é essencial, já que o calor excessivo pode comprometer os óleos essenciais e a qualidade do produto. No fim, deu tudo certo, mas foi e ainda é um desafio, devido a essa sensibilidade. Não dá para descuidar um minuto”, relatou Paulo. Lúpulo após secagem. Fabio Hirayama/Prefeitura Municipal de São José dos Pinhais. Questionados sobre a possibilidade de criar uma marca própria de cerveja, os produtores afirmaram que não pretendem seguir esse caminho, já que fornecem lúpulo para diversas cervejarias da região e não querem se tornar concorrentes de seus próprios clientes. No entanto, planejam investir no turismo local com uma proposta diferenciada: “No futuro, pretendemos integrar a rota turística, oferecendo uma experiência de degustação de cervejas produzidas com o nosso lúpulo, além de um tour pela propriedade, explicando o processo de cultivo. Assim, os visitantes poderão vivenciar algo único e conhecer de perto o aroma do lúpulo produzido por nós, trazendo uma nova perspectiva para uma rota tradicionalmente associada ao vinho, mas que já conta com diversas cervejarias”, complementou Fernando. Plantação de lúpulo durante período de crescimento pré-florada. Arquivo pessoal Paulo Roberto e Fernando Ary. A plantação ocupa uma área de 1,1 hectare e conta com quatro variedades comerciais de lúpulo: Cascade, Comet, Saaz e Mittelfrueh. Outras 15 variedades também estão sendo cultivadas para fins de teste e estudo. Devido ao clima, são realizadas duas safras por ano, durante o período mais quente. Na primeira safra deste ano, colhida em janeiro, conseguiram 1.200 kg de lúpulo. Para

Em um local conhecido popularmente como Rota Turística do Caminho do Vinho, em São José dos Pinhais, surge um cultivo que foge à “regra”: dois amigos decidiram inovar ao plantar lúpulo, um dos principais ingredientes da cerveja. A iniciativa é incomum não apenas por estar inserida em uma rota tradicionalmente voltada ao vinho, mas também porque o cultivo ainda não é popular no Paraná, nem mesmo no Brasil. Segundo dados mais recentes da Associação Brasileira de Lúpulo (Aprolúpulo), referentes a 2024, o país conta com cerca de 109 produtores distribuídos em 13 estados. Mesmo com o recorde de produção de 81,3 toneladas, o Brasil ainda depende da importação de mais de 90% do lúpulo que consome. A história dos produtores são-joseenses é curiosa, Paulo Roberto de Carvalho Júnior e Fernando Ary da Silva nunca haviam tido contato com a agricultura e iniciaram justamente com uma cultura que apresenta mais desafios do que cultivos tradicionais. A ideia surgiu em 2020, quando Paulo assistiu a um episódio do programa Globo Rural em um domingo de manhã. “Eu sempre acordo cedo para assistir ao programa. Quando vi a reportagem, achei curioso e descobri a escassez da produção no Brasil. Aquilo me chamou a atenção e comecei a pesquisar sobre o assunto”, afirmou Paulo. Após a pesquisa inicial, o projeto ficou engavetado por um tempo, até um jantar na casa do amigo Fernando, quando Paulo comentou, de forma despretensiosa, sobre o cultivo e o que havia descoberto. Uma semana depois, Fernando entrou em contato propondo a criação de uma sociedade para iniciar o cultivo. “Nós começamos em 2024, montando a estrutura do campo e preparando a terra. Também buscamos orientação técnica de um agrônomo especializado, pois tivemos que aprender tudo do zero”, relatou Fernando. Paulo Roberto, à direita, e Fernando Ary, à esquerda. Fabio Hirayama/Prefeitura Municipal de São José dos Pinhais. Os sócios já investiram aproximadamente meio milhão de reais na estrutura que, para o beneficiamento do lúpulo, conta com secadora, peletizadora, embaladora a vácuo com atmosfera modificada (injeção de nitrogênio) e uma câmera fria muito utilizada no período de colheita e conservação do produto. Além disso, há também sistema de suplementação de luz solar, como explica Stéfano Gomes Kretzer, agrônomo especialista no cultivo de lúpulo e responsável pela orientação técnica da propriedade. “O cultivo de lúpulo nessa localidade só é possível e viável financeiramente por conta da suplementação luminosa, uma estrutura com lâmpadas que complementam a necessidade de luz solar de aproximadamente 16 à 17 horas diárias, que apenas com luz natural não é possível já que só dura por volta de 12 horas em um bom dia” informou o agrônomo. Estrutura de suplementação luminosa da propriedade. Arquivo pessoal Paulo Roberto e Fernando Ary. Durante o processo, os sócios enfrentaram dificuldades, como a aquisição de equipamentos pouco comuns no Brasil e o próprio processo de secagem. Isso porque a qualidade do lúpulo está diretamente ligada à lupulina, composto presente na flor que concentra óleos essenciais responsáveis pelo amargor e aroma da cerveja. “O processo de secagem é bem complexo. Na nossa primeira safra, ainda não tínhamos secador próprio, então utilizamos o de um conhecido que trabalhava com camomila. Por ser um espaço de terceiros, não conseguimos controlar a temperatura o tempo todo, o que é essencial, já que o calor excessivo pode comprometer os óleos essenciais e a qualidade do produto. No fim, deu tudo certo, mas foi e ainda é um desafio, devido a essa sensibilidade. Não dá para descuidar um minuto”, relatou Paulo. Lúpulo após secagem. Fabio Hirayama/Prefeitura Municipal de São José dos Pinhais. Questionados sobre a possibilidade de criar uma marca própria de cerveja, os produtores afirmaram que não pretendem seguir esse caminho, já que fornecem lúpulo para diversas cervejarias da região e não querem se tornar concorrentes de seus próprios clientes. No entanto, planejam investir no turismo local com uma proposta diferenciada: “No futuro, pretendemos integrar a rota turística, oferecendo uma experiência de degustação de cervejas produzidas com o nosso lúpulo, além de um tour pela propriedade, explicando o processo de cultivo. Assim, os visitantes poderão vivenciar algo único e conhecer de perto o aroma do lúpulo produzido por nós, trazendo uma nova perspectiva para uma rota tradicionalmente associada ao vinho, mas que já conta com diversas cervejarias”, complementou Fernando. Plantação de lúpulo durante período de crescimento pré-florada. Arquivo pessoal Paulo Roberto e Fernando Ary. A plantação ocupa uma área de 1,1 hectare e conta com quatro variedades comerciais de lúpulo: Cascade, Comet, Saaz e Mittelfrueh. Outras 15 variedades também estão sendo cultivadas para fins de teste e estudo. Devido ao clima, são realizadas duas safras por ano, durante o período mais quente. Na primeira safra deste ano, colhida em janeiro, conseguiram 1.200 kg de lúpulo. Para produzir mais Os produtores contam com o apoio da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento de São José dos Pinhais, que realizou análises de solo na propriedade por meio do Programa Terra Fértil. Com o objetivo de promover o uso sustentável do solo, o programa oferece até duas análises anuais por produtor. Caso seja identificada a necessidade de correção da acidez, são disponibilizadas até 30 toneladas de calcário por produtor, ao custo simbólico de R$10 por tonelada, com frete por conta do agricultor. Em 2025, o programa atendeu 78 ordens de serviço e distribuiu mais de 1.260 toneladas de calcário. Coleta de solo para análise. Douglas Ceccon/Prefeitura Municipal de São José dos Pinhais.

