'Boss do tráfico': como roubo de celular de criminoso ajudou polícia a descobrir rede ligada ao Comando Vermelho

Celular roubado desvenda rede milionária do tráfico O roubo de um celular em um sinal de trânsito em Fortaleza ajudou a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio de Janeiro a descobrirem uma rede de tráfico que, segundo os investigadores, fornecia drogas para o Comando Vermelho. O dono do aparelho era Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, identificado como um dos principais fornecedores de drogas do grupo. Em conversas com traficantes, ele era chamado de "Gordão" ou "Boss", que significa "chefe", em inglês. Segundo a investigação à qual o Fantástico teve acesso, Laércio usava diferentes celulares para separar a vida pessoal dos negócios e tentar esconder sua identidade. Um deles, usado para tratar das atividades criminosas, foi roubado. Para tentar recuperar o aparelho, "Boss" passou a usar o celular pessoal, o único que, segundo a polícia, mantinha arquivos salvos na nuvem. Foi pelo número pessoal que ele pediu ajuda a traficantes do Ceará, seguiu tratando de encomendas de drogas e, sem perceber, registrou os rastros que tentava esconder. Com autorização da Justiça, a Polícia obteve dados de linhas telefônicas e contas na nuvem de Laércio. Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, o "Boss", é apontado pela Polícia como um "fornecedor de fornecedores" de drogas Reprodução/TV Globo Em um áudio obtido pela investigação, ele demonstra preocupação ao perceber que o número de um motorista que fazia o transporte de uma carga de drogas estava salvo no celular roubado. "Eu tô desesperado, truta. Eu investi uns três milhões e meio", disse Laércio, que acionou criminosos para tentar encontrar o aparelho. "Já liguei o Bin Laden, o Avião, os caras daqui do Ceará. Os caras já colocaram em todos os grupos da facção". 'Fornecedor de fornecedores' Uma das conversas é com Anderson Sant’Anna da Silva, conhecido como "Gão" e apontado pela investigação como chefe do tráfico de uma favela na Zona Norte do Rio. No diálogo, "Gão" trata do tamanho do mercado que poderia ser abastecido por "Boss". "Tem várias favelas que nós podemos entregar. Nós temos em 355 favelas do Comando Vermelho", afirmou. A polícia ainda não sabe quanto droga Laércio movimentou, mas uma apreensão deu uma dimensão do volume do negócio. Em fevereiro de 2024, a Polícia Civil de São Paulo investigava um galpão em Guarulhos quando parou um caminhão e encontrou cocaína e maconha escondidos nos tanques de combustível. Ao todo, foram apreendidos mais de 715 quilos de drogas. Meses depois, quando investigadores do Rio identificaram Laércio como "Boss", cruzaram conversas e os pagamentos encontrados na investigação com os dados da apreensão em Guarulhos. A conclusão foi de que a carga pertencia a ele. O procedimento deverá ser encaminhado ao Ministério Público de São Paulo para uma denúncia sobre o tráfico de drogas. Em uma conversa obtida por investigadores, Laércio relaciona apreensão de carga de drogas a pregação feita por pastor Reprodução/TV Globo Em outra conversa, desta vez com um pastor, Laércio fala sobre a apreensão de uma carga de drogas no Rio e relaciona o episódio a uma pregação religiosa que tinha ouvido anteriormente. "Você lembra aquela revelação? Que tinha pessoas armando, tinha pessoas tramando?", perguntou Laércio. O pastor responde: "A pregação foi falando que tavam armando uma cilada, conspiração, tudo para tentar destruir, só que Deus estava quebrando tudo". Laércio acreditava que a prisão do motorista foi uma espécie de sinal que confirmava as palavras do pastor e que a perda da carga tinha sido um livramento. O pastor então diz: "Isso é só para você saber que Deus tá no negócio mesmo". Prisão em Maceió Mas a investigação avançou até chegar ao próprio Laércio, preso nesta semana em uma cobertura em Maceió durante uma operação contra o grupo que, segundo as investigações, fornecia drogas para o Comando Vermelho. Laércio é acusado de associação para o tráfico e lavagem de dinheiro. Outras cinco pessoas também foram presas na operação que cumpriu mandados em quatro estados. No apartamento de Laércio, os policiais encontraram uma mala com cerca de R$ 100 mil, além de roupas, acessórios e tênis de marcas famosas. Laércio foi preso em uma cobertura em Maceió Reprodução/TV Globo A investigação também descobriu que ele tinha outros imóveis em endereços nobres em Maceió, no Rio de Janeiro e em São Paulo. O secretário da Polícia Civil do Rio, Delmir Gouveia, disse que Laércio atuava como um fornecedor de emergencial para o tráfico e movimentou R$ 70 milhões no período analisado pela investigação. "Ele era um fornecedor de fornecedores. Quando os fornecedores de drogas das facções do Rio e São Paulo tinham algum problema logístico, recorriam a ele para suprir aquela demanda naquele momento", disse Gouveia. Policiais também são investigados Os investigadores afirmam que Laércio não atuava sozinho. Dois policiais militares são apontados como integrantes do esquema e responsáveis pelo recolhimento do dinheiro e pela segurança do transporte das drogas. U

Set 27, 2026 - 22:00
 0  5
'Boss do tráfico': como roubo de celular de criminoso ajudou polícia a descobrir rede ligada ao Comando Vermelho

Celular roubado desvenda rede milionária do tráfico O roubo de um celular em um sinal de trânsito em Fortaleza ajudou a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio de Janeiro a descobrirem uma rede de tráfico que, segundo os investigadores, fornecia drogas para o Comando Vermelho. O dono do aparelho era Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, identificado como um dos principais fornecedores de drogas do grupo. Em conversas com traficantes, ele era chamado de "Gordão" ou "Boss", que significa "chefe", em inglês. Segundo a investigação à qual o Fantástico teve acesso, Laércio usava diferentes celulares para separar a vida pessoal dos negócios e tentar esconder sua identidade. Um deles, usado para tratar das atividades criminosas, foi roubado. Para tentar recuperar o aparelho, "Boss" passou a usar o celular pessoal, o único que, segundo a polícia, mantinha arquivos salvos na nuvem. Foi pelo número pessoal que ele pediu ajuda a traficantes do Ceará, seguiu tratando de encomendas de drogas e, sem perceber, registrou os rastros que tentava esconder. Com autorização da Justiça, a Polícia obteve dados de linhas telefônicas e contas na nuvem de Laércio. Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, o "Boss", é apontado pela Polícia como um "fornecedor de fornecedores" de drogas Reprodução/TV Globo Em um áudio obtido pela investigação, ele demonstra preocupação ao perceber que o número de um motorista que fazia o transporte de uma carga de drogas estava salvo no celular roubado. "Eu tô desesperado, truta. Eu investi uns três milhões e meio", disse Laércio, que acionou criminosos para tentar encontrar o aparelho. "Já liguei o Bin Laden, o Avião, os caras daqui do Ceará. Os caras já colocaram em todos os grupos da facção". 'Fornecedor de fornecedores' Uma das conversas é com Anderson Sant’Anna da Silva, conhecido como "Gão" e apontado pela investigação como chefe do tráfico de uma favela na Zona Norte do Rio. No diálogo, "Gão" trata do tamanho do mercado que poderia ser abastecido por "Boss". "Tem várias favelas que nós podemos entregar. Nós temos em 355 favelas do Comando Vermelho", afirmou. A polícia ainda não sabe quanto droga Laércio movimentou, mas uma apreensão deu uma dimensão do volume do negócio. Em fevereiro de 2024, a Polícia Civil de São Paulo investigava um galpão em Guarulhos quando parou um caminhão e encontrou cocaína e maconha escondidos nos tanques de combustível. Ao todo, foram apreendidos mais de 715 quilos de drogas. Meses depois, quando investigadores do Rio identificaram Laércio como "Boss", cruzaram conversas e os pagamentos encontrados na investigação com os dados da apreensão em Guarulhos. A conclusão foi de que a carga pertencia a ele. O procedimento deverá ser encaminhado ao Ministério Público de São Paulo para uma denúncia sobre o tráfico de drogas. Em uma conversa obtida por investigadores, Laércio relaciona apreensão de carga de drogas a pregação feita por pastor Reprodução/TV Globo Em outra conversa, desta vez com um pastor, Laércio fala sobre a apreensão de uma carga de drogas no Rio e relaciona o episódio a uma pregação religiosa que tinha ouvido anteriormente. "Você lembra aquela revelação? Que tinha pessoas armando, tinha pessoas tramando?", perguntou Laércio. O pastor responde: "A pregação foi falando que tavam armando uma cilada, conspiração, tudo para tentar destruir, só que Deus estava quebrando tudo". Laércio acreditava que a prisão do motorista foi uma espécie de sinal que confirmava as palavras do pastor e que a perda da carga tinha sido um livramento. O pastor então diz: "Isso é só para você saber que Deus tá no negócio mesmo". Prisão em Maceió Mas a investigação avançou até chegar ao próprio Laércio, preso nesta semana em uma cobertura em Maceió durante uma operação contra o grupo que, segundo as investigações, fornecia drogas para o Comando Vermelho. Laércio é acusado de associação para o tráfico e lavagem de dinheiro. Outras cinco pessoas também foram presas na operação que cumpriu mandados em quatro estados. No apartamento de Laércio, os policiais encontraram uma mala com cerca de R$ 100 mil, além de roupas, acessórios e tênis de marcas famosas. Laércio foi preso em uma cobertura em Maceió Reprodução/TV Globo A investigação também descobriu que ele tinha outros imóveis em endereços nobres em Maceió, no Rio de Janeiro e em São Paulo. O secretário da Polícia Civil do Rio, Delmir Gouveia, disse que Laércio atuava como um fornecedor de emergencial para o tráfico e movimentou R$ 70 milhões no período analisado pela investigação. "Ele era um fornecedor de fornecedores. Quando os fornecedores de drogas das facções do Rio e São Paulo tinham algum problema logístico, recorriam a ele para suprir aquela demanda naquele momento", disse Gouveia. Policiais também são investigados Os investigadores afirmam que Laércio não atuava sozinho. Dois policiais militares são apontados como integrantes do esquema e responsáveis pelo recolhimento do dinheiro e pela segurança do transporte das drogas. Um deles chegou a reclamar do volume de trabalho em uma conversa. "Eu sou o que mais trabalha nesse bagulho, mano. O que mais gosta de trabalhar, o que mais gosta de ganhar dinheiro. Eu sou comandado. Não sou comandante, não, amigo", afirmou. A investigação também apura a possível participação de um policial civil do Rio. O agente chamou a atenção dos investigadores depois de ser abordado em um pequeno aeroporto de São Paulo de Olivença, no interior do Amazonas, próximo à fronteira com o Peru e a Colômbia. Ele estava em um avião particular fretado por cinco dias, em uma viagem que custou R$ 128 mil e foi paga por PIX por seu pai. Segundo os investigadores, nenhum dos dois tinha renda compatível com o custo do voo. Nenhuma droga foi encontrada com ele, mas o número do policial estava salvo na agenda de "Boss". O corregedor-geral da Polícia Civil do Rio, Alexandre Capote, afirmou que o agente foi chamado para prestar esclarecimentos e permaneceu em silêncio. "Conseguimos levantar que uma das empresas desse policial tinha um papel fundamental nessa dissimulação dos valores provenientes do tráfico de drogas", disse Capote.