Mulher resgatada após 55 anos trabalhando para a mesma família passou por três gerações da casa

Idosa resgatada em condomínio de luxo tem direito a indenização de R$1,5 mi, afirma MPT Uma mulher de 62 anos, que trabalhava como doméstica para a mesma família havia 55 anos, foi resgatada em um condomínio de alto padrão em Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza. O caso veio à tona após uma denúncia anônima feita ao Disque 100. A fiscalização foi realizada no fim de junho por auditores fiscais do trabalho e por servidores da Secretaria de Direitos Humanos do Ceará. Segundo a antropóloga Vera Rodrigues, a história da trabalhadora atravessou gerações. "O caso de que nós estamos falando agora é de uma pessoa que passou, no mínimo, três gerações na mesma situação. Cinquenta anos da vida comprometidos e só agora, por meio de uma denúncia anônima, houve uma ação de proteção social do Estado em relação a esse caso." Uma moradora do condomínio afirmou que os vizinhos não desconfiavam da situação. "A gente não tem noção do que tá acontecendo na casa do vizinho." História começou ainda na infância Mulher resgatada após 55 anos trabalhando para a mesma família passou por três gerações da casa Reprodução/Fantástico De acordo com a fiscalização, a história começou no fim da década de 1960, quando a mãe da trabalhadora prestou serviços para um casal até os 14 anos de idade. Depois, ela se mudou para o Piauí, onde se casou e teve seis filhos. Em 1971, o casal a levou de volta com duas filhas. Uma delas era a trabalhadora resgatada, que começou a realizar serviços domésticos aos 7 anos. Em 1982, após a morte da mãe e a saída da irmã da casa, ela passou a trabalhar para Aurora Alencar e o marido, Paulo Brasil, filha e genro do primeiro casal. Em 2014, aos 50 anos, foi trabalhar para Zaamarah Andrade, neta do casal, permanecendo na terceira geração da mesma família. Segundo uma auditora fiscal do trabalho, o caso revela uma relação de transmissão entre gerações. "Nesse caso específico, nós vemos que ela tem todo um sentido patrimonial, porque ela é dada como herança", diz Dercylete Lisboa, diretora de Fiscalização, do Ministério do Trabalho. Uma psicóloga ouvida pela reportagem explica que, nesse tipo de relação, é comum que a oferta de alimento e moradia seja usada para justificar a exploração do trabalho sem qualquer proteção social. Trabalhadora continua na casa Mesmo após o resgate, a mulher continua morando na residência. Segundo a avaliação dos auditores fiscais e da Secretaria de Direitos Humanos do Ceará, ela não tem autonomia para deixar imediatamente o local devido à dependência econômica e emocional construída ao longo de décadas. Para a equipe que acompanha o caso, esse processo precisa acontecer de forma gradual. "A construção dessa autonomia, dessa reconstrução com os vínculos familiares, com sua família biológica, a gente compreende que é um processo." Ainda segundo a Secretaria de Direitos Humanos, retirá-la imediatamente da residência poderia causar mais danos emocionais. Acordo prevê pagamento e compra de imóvel O Ministério Público do Trabalho e a família firmaram um Termo de Ajuste de Conduta (TAC). O acordo prevê: pagamento de R$ 50 mil a título de verbas rescisórias; compra de uma casa para a trabalhadora, no valor mínimo de R$ 150 mil, com mobília e eletrodomésticos essenciais; recolhimento dos direitos previdenciários. Família nega situação análoga à escravidão Zaamarah Andrade, dona da casa onde a mulher foi resgatada, ocupava um cargo comissionado na Prefeitura de Fortaleza e foi exonerada na quarta-feira (8). O advogado da família reconheceu que a trabalhadora não tinha carteira assinada nem recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), mas negou que ela vivesse em situação análoga à escravidão. Zaamarah Andrade, dona da casa onde a mulher foi resgatada, foi exonerada na quarta-feira (8). Reprodução/Fantástico Segundo a defesa, havia diaristas responsáveis pela limpeza da residência e a rotina da mulher não era =exaustiva. O advogado também afirmou que ela exerceu outras atividades ao longo da vida, como a venda de semijoias. Caso pode ter desdobramentos criminais O relatório sobre o resgate será encaminhado à Polícia Federal nos próximos dias. Com isso, a família ainda poderá responder criminalmente pelo caso. Segundo os auditores fiscais, a trabalhadora teria direito a cerca de R$ 1,5 milhão em indenizações. Para uma das auditoras que participou da fiscalização, o caso revela uma situação extrema de vulnerabilidade. "É isso que sempre nos choca quando vemos essa situação de extrema vulnerabilidade, de extrema 'coisificação' de um ser humano que não teve oportunidade de ter uma vida diferente. Não justifica e não justificará." GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO Confira também: Advogado, médico veterinário, servidora pública: quem são os empregadores de mulher de 62 anos resgatada em condições análogas à escravidão no Ceará Governo atualiza 'lista suja' do trabalho escravo e inclui Amado Batista e

Jul 12, 2026 - 22:00
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Mulher resgatada após 55 anos trabalhando para a mesma família passou por três gerações da casa

Idosa resgatada em condomínio de luxo tem direito a indenização de R$1,5 mi, afirma MPT Uma mulher de 62 anos, que trabalhava como doméstica para a mesma família havia 55 anos, foi resgatada em um condomínio de alto padrão em Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza. O caso veio à tona após uma denúncia anônima feita ao Disque 100. A fiscalização foi realizada no fim de junho por auditores fiscais do trabalho e por servidores da Secretaria de Direitos Humanos do Ceará. Segundo a antropóloga Vera Rodrigues, a história da trabalhadora atravessou gerações. "O caso de que nós estamos falando agora é de uma pessoa que passou, no mínimo, três gerações na mesma situação. Cinquenta anos da vida comprometidos e só agora, por meio de uma denúncia anônima, houve uma ação de proteção social do Estado em relação a esse caso." Uma moradora do condomínio afirmou que os vizinhos não desconfiavam da situação. "A gente não tem noção do que tá acontecendo na casa do vizinho." História começou ainda na infância Mulher resgatada após 55 anos trabalhando para a mesma família passou por três gerações da casa Reprodução/Fantástico De acordo com a fiscalização, a história começou no fim da década de 1960, quando a mãe da trabalhadora prestou serviços para um casal até os 14 anos de idade. Depois, ela se mudou para o Piauí, onde se casou e teve seis filhos. Em 1971, o casal a levou de volta com duas filhas. Uma delas era a trabalhadora resgatada, que começou a realizar serviços domésticos aos 7 anos. Em 1982, após a morte da mãe e a saída da irmã da casa, ela passou a trabalhar para Aurora Alencar e o marido, Paulo Brasil, filha e genro do primeiro casal. Em 2014, aos 50 anos, foi trabalhar para Zaamarah Andrade, neta do casal, permanecendo na terceira geração da mesma família. Segundo uma auditora fiscal do trabalho, o caso revela uma relação de transmissão entre gerações. "Nesse caso específico, nós vemos que ela tem todo um sentido patrimonial, porque ela é dada como herança", diz Dercylete Lisboa, diretora de Fiscalização, do Ministério do Trabalho. Uma psicóloga ouvida pela reportagem explica que, nesse tipo de relação, é comum que a oferta de alimento e moradia seja usada para justificar a exploração do trabalho sem qualquer proteção social. Trabalhadora continua na casa Mesmo após o resgate, a mulher continua morando na residência. Segundo a avaliação dos auditores fiscais e da Secretaria de Direitos Humanos do Ceará, ela não tem autonomia para deixar imediatamente o local devido à dependência econômica e emocional construída ao longo de décadas. Para a equipe que acompanha o caso, esse processo precisa acontecer de forma gradual. "A construção dessa autonomia, dessa reconstrução com os vínculos familiares, com sua família biológica, a gente compreende que é um processo." Ainda segundo a Secretaria de Direitos Humanos, retirá-la imediatamente da residência poderia causar mais danos emocionais. Acordo prevê pagamento e compra de imóvel O Ministério Público do Trabalho e a família firmaram um Termo de Ajuste de Conduta (TAC). O acordo prevê: pagamento de R$ 50 mil a título de verbas rescisórias; compra de uma casa para a trabalhadora, no valor mínimo de R$ 150 mil, com mobília e eletrodomésticos essenciais; recolhimento dos direitos previdenciários. Família nega situação análoga à escravidão Zaamarah Andrade, dona da casa onde a mulher foi resgatada, ocupava um cargo comissionado na Prefeitura de Fortaleza e foi exonerada na quarta-feira (8). O advogado da família reconheceu que a trabalhadora não tinha carteira assinada nem recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), mas negou que ela vivesse em situação análoga à escravidão. Zaamarah Andrade, dona da casa onde a mulher foi resgatada, foi exonerada na quarta-feira (8). Reprodução/Fantástico Segundo a defesa, havia diaristas responsáveis pela limpeza da residência e a rotina da mulher não era =exaustiva. O advogado também afirmou que ela exerceu outras atividades ao longo da vida, como a venda de semijoias. Caso pode ter desdobramentos criminais O relatório sobre o resgate será encaminhado à Polícia Federal nos próximos dias. Com isso, a família ainda poderá responder criminalmente pelo caso. Segundo os auditores fiscais, a trabalhadora teria direito a cerca de R$ 1,5 milhão em indenizações. Para uma das auditoras que participou da fiscalização, o caso revela uma situação extrema de vulnerabilidade. "É isso que sempre nos choca quando vemos essa situação de extrema vulnerabilidade, de extrema 'coisificação' de um ser humano que não teve oportunidade de ter uma vida diferente. Não justifica e não justificará." GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO Confira também: Advogado, médico veterinário, servidora pública: quem são os empregadores de mulher de 62 anos resgatada em condições análogas à escravidão no Ceará Governo atualiza 'lista suja' do trabalho escravo e inclui Amado Batista e BYD Adultos e menores de idade são resgatados de situação análoga à escravidão em colheita de mandioca no Paraná