“Nova era?”: Cinco contratações da SAF que viraram mico no Coritiba

Quando o Coritiba concretizou a venda de 90% da Sociedade Anônima de Futebol (SAF) para a Treecorp Investimentos, em junho de 2023, a expectativa era de uma mudança radical nos rumos do futebol do centenário clube do Couto Pereira. O negócio seria oficializado no final daquele ano. Traumatizados com as trapalhadas de gestões recentes como […]

Mar 10, 2026 - 12:30
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“Nova era?”: Cinco contratações da SAF que viraram mico no Coritiba

Quando o Coritiba concretizou a venda de 90% da Sociedade Anônima de Futebol (SAF) para a Treecorp Investimentos, em junho de 2023, a expectativa era de uma mudança radical nos rumos do futebol do centenário clube do Couto Pereira. O negócio seria oficializado no final daquele ano.

Traumatizados com as trapalhadas de gestões recentes como as de Rogério Bacellar, Samir Namur e Glenn Stenger – e com o fim precoce da promissora passagem de Renato Follador -, os coxas-brancas miravam um novo patamar no cenário nacional, com gestão profissional e conquistas em campo.

Na empolgação, houve até mesmo quem delirasse com o craque argentino Di María no Alto da Glória. Alucinações à parte, a torcida alviverde aguardava maior investimento em contratações bem escolhidas, o fim da gangorra entre as Séries A e B e, em um futuro próximo, o sonho com voos mais altos no continente.

Quase três anos depois, se nos bastidores e na gestão a Treecorp Investimentos promoveu profunda reformulação, dentro de campo o Coritiba ainda não alterou o seu escalão. Logo em 2023, caiu para a Série B. Em 2024, fracassou na tentativa de retorno à elite. E, só em 2025, alcançou o título da Segunda Divisão.

SAF repetiu erros de cartolas amadores no Coritiba

Antes da chamada ‘era SAF’, os presidentes do Coritiba alcançavam o posto após vencerem as acirradas disputas internas que tinham como palco o turbulento Conselho Deliberativo.

Marcado principalmente pela vaidade e uma certa autofagia, o Conselhão alviverde alçava ao cargo máximo do clube mandatários que, embora bem-sucedidos em suas respectivas áreas de atuação profissional, pouco ou nada entendiam do rarefeito ambiente particular do futebol profissional.

Com a chegada da Treecorp, sob os auspícios da “aura bem-sucedida” do empresário Roberto Justus, uma nova era nascia. Mas não foi bem o que aconteceu. Logo em 2023, a nova diretoria empilhou contratações equivocadas, que prosseguiram nos anos seguintes, com apostas em nomes exóticos e as adoradas ‘oportunidades de negócio’.

Tanto é que, quase três anos depois, torcedores estendem faixas no Couto Pereira pedindo a saída de gestores como William Thomas e Lucas de Paula e criticam a atuação da Treecorp no futebol. Já a presidente da Associação, Marianna Libano, fez duras críticas à SAF.

Nova era? Cinco contratações da SAF que viraram mico no Coritiba

Diante deste cenário de expectativa e frustração com uma SAF que, até aqui, pouco fez de diferente no futebol do Coritiba, listamos cinco contratações que viraram mico no Coxa em plena aurora da prometida nova era.

Jesé Rodríguez – pacotão à moda antiga

A SAF já encontrou um Coritiba lutando contra o rebaixamento no Brasileirão na metade da temporada de 2023. Na gestão do futebol, as apostas foram no CEO Carlos Amodeo e no diretor de futebol Artur Moraes, ex-goleiro com passagem pelo próprio Coxa.

Jesé Rodríguez foi um retumbante fiasco no Coritiba. Foto: Abner Dourado/AGIF/Sipa USA/IconSport

Diante do cenário de pressão e necessidade de resultados, a dupla já foi logo apelando para um dos mais antigos truques do manual do cartolão ultrapassado: apostou em medalhões em plena decadência esportiva, mas com os salários ainda superfaturados.

O espanhol Jesé Rodríguez, revelado na base do Real Madrid e com passagens por clubes como Paris Saint-Germain, foi uma das decepções. O atleta, que já havia passado por Ankaragücü-TUR e Sampdoria-ITA naquele ano, disputaria apenas seis partidas e marcaria um gol, em uma passagem pra lá de decepcionante pelo clube.

Além de Jesé, o Coxa também fecharia com mais dois gringos similares: o argelino Islam Slimani, que fez seus golzinhos e depois simplesmente sumiu do Coritiba após a queda para a Série B; e o volante grego Andreas Samaris, que parecia ter sido obrigado à força a defender o clube em campo.

Bruno Viana – contratação cara, retorno nulo

Bruno Viana chegou ao Coritiba em janeiro de 2023, ou seja, ainda antes da venda da SAF ser sacramentada. No entanto, nos bastidores do Coxa, era a nova gestão que já dava as cartas. Em pouco tempo, o defensor virou um dos principais alvos da torcida, empilhando más atuações.

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SAF já errou feito com a aposta em Bruno Viana. Foto: Divulgação/Coritiba

Pesava ainda o fato de que o zagueiro custou cerca de R$ 5,5 milhões e representava um dos reforços mais caros da história alviverde. Ou seja, o clube abriu os cofres, mas errou feito na escolha. No total, Bruno Viana só jogou 19 vezes pelo Coritiba, antes de ser emprestado para o Al-Hazm, da Arábia Saudita, e Gaziantep, da Turquia.

Em agosto do nao passado, o Coxa anunciou a rescisão de contrato do contestado defensor, que ficou livre no mercado para assinar com o Alanyaspor, seu atual clube no futebol turco.

David da Hora – um atacante digno dos scouts modernos

Antigamente, os clubes contavam em suas estruturas com os chamados olheiros: figuras folclóricas, antigos entendidos do ramo, personagens experientes que caíam na estrada e que, com um caderninho em uma das mãos e um copo de café na outra, observavam in loco potenciais talentos para futuros negócios.

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David da Hora não brilhou como esperava o departamento de futebol. (Foto: Divulgação/Coritiba)

Os tempos mudaram, evidentemente. O futebol, dizem, está mais profissional. Ainda mais na era das SAFs. Os antigos olheiros foram substituídos pelos modernos scouts. Em vez do cheiro da grama e da prospecção mais intimista, digamos assim, dos atletas, agora bastam um computador, uma sala e um diploma da CBF.

Digressões à parte, o contratação do atacante David da Hora simboliza bem a nova era de recomendações de reforços. Provavelmente alguém, de frente para um notebook, viu os números do jogador, sua idade, trajetória, valor de mercado e concluiu: vale o investimento.

Resultado: o Coritiba pagou R$ 4 milhões em fevereiro de 2024 por um atacante que fez dez jogos, não marcou gol e acabou emprestado para Juventude, CRB, América-MG e, mais recentemente, Ponte Preta.

Clayson – o momento agora é das ‘oportunidades de negócio’

Ainda na Série B do ano passado, a diretoria do Coritiba já apresentava o novo paradigma a ser adotado nas próximas contratações: as chamadas oportunidades de negócio. Em outras palavras, apostas em jogadores baratos que há anos não correspondem em campo. Mas quem sabe aqui não dá certo?

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Atacante Clayson não marca há mais de um ano. (Foto: Geraldo Bubniak/AGB/Gazeta Press)

O atacante Clayson simbolizou bem a estratégia. Após fazer 18 jogos e não anotar nenhum gol com a camisa do Mirassol em 2025, o clube paulista entendeu que o melhor, talvez, fosse dar um novo destino ao jogador. Fazia sentido. E o Coxa abriu as portas.

Com a camisa coxa-branca, foram mais 22 jogos com a proeza de passar uma temporada inteira sem ir às redes, sem um golzinho sequer, sem uma alegria para nenhum torcedor. Em 2026, Clayson virou novamente oportunidade de negócio, agora para o recém-rebaixado Sport. Em três jogos, ainda não marcou.

A estratégia, aliás, foi mantida para 2026, pouco importando que agora o desafio é na Série A. Chegaram nomes como Keiller, sem espaço no Inter; Felipe Jonathan, que estava sem clube; Willian Oliveira, Fernando Sobral, Gustavo, Fabinho, entre outros. A meta é uma só: gastar pouco. Se der certo, é lucro.

Eryc Castillo – existe jogador “custo zero”?

Pra fechar, voltamos a 2024 para relembrar a estranha chegada do atacante equatoriano Eryc Castillo, que não servia para o Vitória, mas virou aposta do Coritiba. O jogador chegou do jeito que a SAF gosta: sem custos. Foi o primeiro reforço anunciado na reabertura da janela de meio de ano daquela temporada.

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Ou seja, para bom entendedor, a realidade da permanência na Série B começava a ser consumada. O Coxa não vencia há seis jogos na disputa e era apenas o 15º colocado, dois pontos acima da zona de rebaixamento. Já Castillo somava 17 jogos e apenas um golzinho pelo Vitória, que não contava mais com o gringo.

O resultado em campo não poderia ter sido outro. O Coxa ficou na Segundona. E Castillo nunca foi um concorrente sério à titularidade, fez apenas seis jogos e não marcou gols com a camisa coxa-branca, deixando o clube sem alarde ao final da temporada.

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