Paraná Clube sepulta sonho do Ninho sob a promessa de um novo “salvador”
O Paraná Clube sepultou mais um sonho na semana passada, ao retirar do CT Ninho da Gralha os últimos pertences que ainda mantinha em mais um imóvel perdido na Justiça. O símbolo maior da despedida foi um troféu esquecido em uma sala do hotel dentro do centro de treinamento de 260 mil metros quadrados, situado […]
O Paraná Clube sepultou mais um sonho na semana passada, ao retirar do CT Ninho da Gralha os últimos pertences que ainda mantinha em mais um imóvel perdido na Justiça.
O símbolo maior da despedida foi um troféu esquecido em uma sala do hotel dentro do centro de treinamento de 260 mil metros quadrados, situado em Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba. Enquanto a taça deixou o local nas mãos de um funcionário, os demais pertences seguiram para a Vila Capanema na caçamba de um pequeno caminhão.
A morte do sonho do Ninho já havia sido decretada em outubro de 2019. Na ocasião, o Tricolor perdeu na Justiça a propriedade para o empresário Carlos Werner, ex-dirigente que cobrava R$ 28 milhões do clube. Na época, o terreno estava avaliado em R$ 19,9 milhões.
Por meio de um acordo com o ex-investidor, o Paraná ainda utilizou as instalações até o final de 2025, antes de transferir suas operações para a Vila Olímpica do Boqueirão na atual temporada. /https%3A%2F%2Fmedia.umdoisesportes.com.br%2Fmain%2F2026%2F08%2Fninho-da-gralha-ex-parana-clube-coritiba.jpg)
A história da perda do Ninho é tortuosa, como quase tudo que envolve as más gestões do Tricolor. Em 2014, o Conselho Deliberativo aprovou empréstimos de Werner destinados à quitação de dívidas imediatas.
O empresário chegou ao clube apresentando-se como um “mecenas” ligado ao grupo político do ex-presidente Leonardo Oliveira. Curiosamente autodenominado ‘Paranistas do Bem’, o grupo participou do movimento que culminou na renúncia do então presidente Rubens Bohlen. Posteriormente, assumiu o poder pelas vias eleitorais.
A principal pendência a ser quitada decorria do processo relacionado ao caso Thiago Neves, movido pelo empresário Léo Rabello. Werner emprestou o dinheiro para que o Paraná pagasse a dívida com o agente. Como garantia do empréstimo, o clube ofereceu o Ninho da Gralha.
Assim, o imóvel que poderia ter sido perdido para Rabello acabou nas mãos de Carlos Werner. Mudou o credor, mas não o desfecho: o Tricolor ficou sem o CT inaugurado em dezembro de 2008, no aniversário de 19 anos do clube.
O Ninho da Gralha não foi apenas mais um patrimônio perdido pelo Paraná Clube
O clima era de esperança quando o Paraná inaugurou seu novo centro de treinamento. Um ano antes, o clube havia vivido a maior temporada de sua história, com participação na Libertadores de 2007 e a classificação para as oitavas de final. No mesmo ano de seu voo mais alto, entretanto, o Tricolor acabou rebaixado para a Série B do Brasileirão.
“Teremos as portas fechadas para agentes. Vamos revelar jogadores para o Paraná Clube, atletas que possam jogar por muito tempo aqui”, prometia o então vice-presidente das categorias de base, Marlo Litwinski, em entrevista à Gazeta do Povo.
No início, o Ninho foi administrado pela empresa BASE, do empresário Renê Bernardi, em uma parceria que também terminou na Justiça. Depois disso, o CT sofreria com atrasos salariais e falta de manutenção./https%3A%2F%2Fmedia.umdoisesportes.com.br%2Fmain%2F2026%2F08%2Fninho-da-gralha-parana-clube.jpg)
Mais do que um terreno, o Ninho representava a possibilidade de o Paraná construir uma estrutura capaz de formar jogadores, gerar receitas e reduzir a dependência de empresários. Mas acabou sacrificado.
Em vez de revelar o próximo camisa 10 do Paraná, o antigo CT vive hoje realidade radicalmente diferente daquela imaginada em sua inauguração. O espaço recebe eventos e retiros de igrejas da região e já foi sede até do Campeonato Brasileiro de Corrida em Trilha e Montanha.
Agora, com o Ninho no passado, o Tricolor vive a expectativa de uma nova esperança. A salvação da vez é atribuída à NextPlay, que tem processo encaminhado para adquirir a Sociedade Anônima de Futebol (SAF) do clube.
Embora não se possa concluir que a nova investidora repetirá os erros de seus antecessores, as experiências anteriores recomendam cautela: a torcida deve manter os olhos abertos e, acima de tudo, cobrar transparência sobre contratos, obrigações, garantias e mecanismos de proteção ao clube.
Depois de tantos “salvadores”, o Paraná não pode correr novamente o risco de descobrir, apenas no momento do rompimento, que era a parte mais frágil do acordo.

