Seleção brasileira virou produto e perdeu a alma após o 7 a 1

Com Neymar mais onipresente do que nunca, mesmo sem sequer poder treinar, a seleção brasileira já não permite mais interpretar o Brasil através do futebol, como fez Nelson Rodrigues com seu conceito clássico de “a pátria de chuteiras”. Há tempos, a seleção brasileira desperta no povo mais indiferença do que sentimento de identificação ou expectativa […]

Jun 3, 2026 - 16:30
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Seleção brasileira virou produto e perdeu a alma após o 7 a 1

Com Neymar mais onipresente do que nunca, mesmo sem sequer poder treinar, a seleção brasileira já não permite mais interpretar o Brasil através do futebol, como fez Nelson Rodrigues com seu conceito clássico de “a pátria de chuteiras”.

Há tempos, a seleção brasileira desperta no povo mais indiferença do que sentimento de identificação ou expectativa pela vitória. O intenso movimento popular que ocorre, especialmente em épocas de Copa do Mundo, não é espontâneo. O apelo comercial dos mais diversos segmentos da comunicação utiliza a Seleção Brasileira para vender de tudo, inclusive a esperança da conquista do hexacampeonato.


O povo brasileiro tem motivos para esse estado crônico de indiferença, inclusive de natureza política e social. Há tempos — situação agravada nos dias atuais —, perdeu a confiança nos Poderes do Estado e em diversas instituições, muitas vezes passando a desprezá-las. No futebol, o que permaneceu foi o clube do coração de cada torcedor.


O saudoso jornalista e escritor espanhol José Sámano, após o 7 a 1 para a Alemanha, na Copa do Mundo de 2014, escreveu no jornal El País:

“O Brasil, seu futebol, está com um grave problema estrutural e em seu fascinante viveiro de sempre há agora bolor. A deslealdade com o passado, com uma escola mítica, resultou numa fraude, numa ofensa à antologia de Leônidas, Pelé, Garrincha, Tostão, Ronaldo e tantos e tantos ídolos do melhor futebol jamais visto. Ganharam como ninguém, deliciaram o público e nunca perderam como agora. Os de hoje perderam como nunca e nos mataram de tédio. Um Brasil postiço, sem retrovisores, nada nativo.”

Portanto, a referência para esse estado de indiferença do brasileiro remete ao traumático 7 a 1 do Mineirão. E, sem ingenuidade, ao perceber que pouco ou nada foi feito para corrigir os problemas revelados naquela derrota histórica, o povo passou a não tratar mais a seleção brasileira como um valor institucional, mas como algo circunstancial, sem comprometer seus sentimentos.

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