O cão que foi ao enterro da dona, nunca mais saiu do cemitério e mais de 10 anos depois acabou enterrado no mesmo local
A história de Bob, o cão que inspirou a lei paulista do sepultamento de pets em jazigos de família. Um cachorro chamado Bob ficou conhecido por sua lealdade. Após o enterro da sua tutora, ele continuou no Cemitério da Saudade, em Taboão da Serra (SP). A família até tentou levá-lo de volta pra casa, mas ele retornou ao local por ali permaneceu por mais de uma década. A história dele foi contada em reportagem do Fantástico de domingo (22). "Terminou o sepultamento (da sua primeira tutora), todos foram embora e o Bob ficou", conta Ana Rita Rodrigo de Santos, diretora do cemitério. "Depois, ele acabou se acostumando com os funcionários." Ailton Francisco dos Santos, coveiro do cemitério, se tornou um de seus melhores amigos. "Ele era muito querido aqui. Podia estar chovendo, fazendo sol, ele ia. Todos os enterros ele estava presente", lembra. Bob viveu por mais de dez anos no local, onde brincava com bolinhas, muitas delas doadas por visitantes após uma campanha criada pela protetora Valéria Ribeiro. Bob viralizou após ela criar uma página nas redes sociais para pedir doações de brinquedos, pois o cãozinho tinha o hábito de pegar os que eram deixados nos túmulos de crianças. Em 2021, Bob morreu atropelado por uma motocicleta. Em sua homenagem, uma estátua foi erguida na entrada do cemitério. “Nossa homenagem e gratidão aos seus ensinamentos de amor”, diz uma mensagem gravada na estátua. Com uma autorização especial da prefeitura, ele foi enterrado no mesmo cemitério onde viveu, se tornando o único animal sepultado ali. Sua história de amor e lealdade inspirou a criação da "Lei Bob Coveiro", que agora se estende para todo o estado. A lei inspirada em Bob Neste mês, o estado de São Paulo sancionou uma lei permite que cães e gatos sejam enterrados no mesmo jazigo de seus tutores em cemitérios públicos e privados. A medida foi inspirada na história de Bob. Com a nova lei em vigor, os municípios paulistas precisam agora regulamentar os procedimentos. Segundo João Manoel da Costa Neto, diretor-presidente da SP Regula, órgão que fiscaliza os cemitérios na capital, ainda serão definidos os detalhes técnicos e sanitários. Jazigo de Bob em cemitério em São Paulo onde ele era chamado de 'coveiro' Reprodução "Vamos entender com a vigilância a questão da decomposição do cadáver animal, qual tipo de recipiente ou caixão deve ser usado e se existe alguma vedação necessária para que não tenha contaminação", explica. Também serão discutidas regras para o velório e o sepultamento. A lei já define que todos os custos serão de responsabilidade da família. Cidades como Matão e Campinas já possuíam leis municipais semelhantes. Os bichinhos passaram a dividir as lápides com os humanos. Em Florianópolis (SC), a prática é permitida desde 2017. A importância do ritual de despedida Para especialistas, a nova lei e a busca por cerimônias como a cremação são importantes para a saúde pública e para o processo de luto dos tutores. "Isso diminui muito aquele hábito incorreto da pessoa eventualmente sepultar em qualquer terreno, fundo de casa, terreno baldio, o que é um risco muito grande de contaminação do solo", aponta João Manoel. A médica veterinária Rita Erickson destaca o aspecto emocional. "Abrir a possibilidade do pet ir para o jazigo da família assume, de uma vez por todas, o papel dele como membro da família", afirma. Ela também ressalta que ter um local específico para o luto, como um cemitério, é mais saudável do que enterrar o animal em casa. "Quando a gente enterra um ser que a gente amou muito no nosso caminho, isso pode trazer uma consequência emocional complicada, porque a gente não passa pelo túmulo de alguém que a gente ama todo dia na hora de ir ao trabalho." Bob viveu por mais de uma década em cemitério Reprodução No fim, o importante é validar o sentimento. "Não tem certo, não tem errado. Cada família tem a sua crença e quer fazer a sua homenagem. Conversar sobre, olhar fotos, contar histórias. Essas são as formas que a gente tem para lidar melhor com o luto", conclui a veterinária. R$ 3 mil para a despedida A cuidadora de animais Helena Marçal de Oliveira não hesitou em desembolsar mais de R$ 3 mil para garantir uma despedida digna para a vira-lata Princesa. A cerimônia, em um crematório particular em São Paulo (SP), incluiu um velório e terminou com as cinzas entregues em uma urna, junto com uma impressão da pata do animal. Helena considerou o custo do procedimento alto, mas ela avalia que isso se tornou pequeno perto do valor emocional do momento. "Eu optei pela [cremação] individual para pegar as cinzas dela. Ali, na hora, eu só conseguia sentir gratidão", conta Helena. "A Princesa foi uma cachorra adotada, que veio da rua. Eu só conseguia agradecer pela oportunidade de poder dar essa despedida pra ela com aquele tipo de tratamento." Helena Marçal guarda com carinho as lembraças de Princesa Reprodução/Fantástico A história de Princesa já havia sido contada em uma reportagem do Fantástico sobre longevidade a

A história de Bob, o cão que inspirou a lei paulista do sepultamento de pets em jazigos de família. Um cachorro chamado Bob ficou conhecido por sua lealdade. Após o enterro da sua tutora, ele continuou no Cemitério da Saudade, em Taboão da Serra (SP). A família até tentou levá-lo de volta pra casa, mas ele retornou ao local por ali permaneceu por mais de uma década. A história dele foi contada em reportagem do Fantástico de domingo (22). "Terminou o sepultamento (da sua primeira tutora), todos foram embora e o Bob ficou", conta Ana Rita Rodrigo de Santos, diretora do cemitério. "Depois, ele acabou se acostumando com os funcionários." Ailton Francisco dos Santos, coveiro do cemitério, se tornou um de seus melhores amigos. "Ele era muito querido aqui. Podia estar chovendo, fazendo sol, ele ia. Todos os enterros ele estava presente", lembra. Bob viveu por mais de dez anos no local, onde brincava com bolinhas, muitas delas doadas por visitantes após uma campanha criada pela protetora Valéria Ribeiro. Bob viralizou após ela criar uma página nas redes sociais para pedir doações de brinquedos, pois o cãozinho tinha o hábito de pegar os que eram deixados nos túmulos de crianças. Em 2021, Bob morreu atropelado por uma motocicleta. Em sua homenagem, uma estátua foi erguida na entrada do cemitério. “Nossa homenagem e gratidão aos seus ensinamentos de amor”, diz uma mensagem gravada na estátua. Com uma autorização especial da prefeitura, ele foi enterrado no mesmo cemitério onde viveu, se tornando o único animal sepultado ali. Sua história de amor e lealdade inspirou a criação da "Lei Bob Coveiro", que agora se estende para todo o estado. A lei inspirada em Bob Neste mês, o estado de São Paulo sancionou uma lei permite que cães e gatos sejam enterrados no mesmo jazigo de seus tutores em cemitérios públicos e privados. A medida foi inspirada na história de Bob. Com a nova lei em vigor, os municípios paulistas precisam agora regulamentar os procedimentos. Segundo João Manoel da Costa Neto, diretor-presidente da SP Regula, órgão que fiscaliza os cemitérios na capital, ainda serão definidos os detalhes técnicos e sanitários. Jazigo de Bob em cemitério em São Paulo onde ele era chamado de 'coveiro' Reprodução "Vamos entender com a vigilância a questão da decomposição do cadáver animal, qual tipo de recipiente ou caixão deve ser usado e se existe alguma vedação necessária para que não tenha contaminação", explica. Também serão discutidas regras para o velório e o sepultamento. A lei já define que todos os custos serão de responsabilidade da família. Cidades como Matão e Campinas já possuíam leis municipais semelhantes. Os bichinhos passaram a dividir as lápides com os humanos. Em Florianópolis (SC), a prática é permitida desde 2017. A importância do ritual de despedida Para especialistas, a nova lei e a busca por cerimônias como a cremação são importantes para a saúde pública e para o processo de luto dos tutores. "Isso diminui muito aquele hábito incorreto da pessoa eventualmente sepultar em qualquer terreno, fundo de casa, terreno baldio, o que é um risco muito grande de contaminação do solo", aponta João Manoel. A médica veterinária Rita Erickson destaca o aspecto emocional. "Abrir a possibilidade do pet ir para o jazigo da família assume, de uma vez por todas, o papel dele como membro da família", afirma. Ela também ressalta que ter um local específico para o luto, como um cemitério, é mais saudável do que enterrar o animal em casa. "Quando a gente enterra um ser que a gente amou muito no nosso caminho, isso pode trazer uma consequência emocional complicada, porque a gente não passa pelo túmulo de alguém que a gente ama todo dia na hora de ir ao trabalho." Bob viveu por mais de uma década em cemitério Reprodução No fim, o importante é validar o sentimento. "Não tem certo, não tem errado. Cada família tem a sua crença e quer fazer a sua homenagem. Conversar sobre, olhar fotos, contar histórias. Essas são as formas que a gente tem para lidar melhor com o luto", conclui a veterinária. R$ 3 mil para a despedida A cuidadora de animais Helena Marçal de Oliveira não hesitou em desembolsar mais de R$ 3 mil para garantir uma despedida digna para a vira-lata Princesa. A cerimônia, em um crematório particular em São Paulo (SP), incluiu um velório e terminou com as cinzas entregues em uma urna, junto com uma impressão da pata do animal. Helena considerou o custo do procedimento alto, mas ela avalia que isso se tornou pequeno perto do valor emocional do momento. "Eu optei pela [cremação] individual para pegar as cinzas dela. Ali, na hora, eu só conseguia sentir gratidão", conta Helena. "A Princesa foi uma cachorra adotada, que veio da rua. Eu só conseguia agradecer pela oportunidade de poder dar essa despedida pra ela com aquele tipo de tratamento." Helena Marçal guarda com carinho as lembraças de Princesa Reprodução/Fantástico A história de Princesa já havia sido contada em uma reportagem do Fantástico sobre longevidade animal no ano passado. Dois meses depois da exibição, ela morreu. A experiência do luto e da despedida foi transformadora para Helena. Além da urna com as cinzas e do molde da pata, ela mandou fazer um amuleto que carrega consigo, também com uma porção das cinzas de Princesa. "Eu não fazia ideia que ia ser tão significativo para mim", reflete. Ouça os podcasts do Fantástico O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.

