Governo Lula admite dificuldade para negociar com EUA, às vésperas do tarifaço: 'Trump está cercado por terraplanistas econômicos'

Fontes do Itamaraty e Planalto tentam negociar com a Casa Branca para diminuir o impacto sobre as novas medidas que devem ser anunciadas nesta quarta-feira (2). Donald Trump disse que o comércio internacional é manipulado contra os EUA Getty Images via BBC O governo Lula tem encontrado dificuldades para negociar com a gestão Donald Trump às vésperas da nova taxação de produtos importados. O intuito do governo brasileiro é diminuir o impacto das novas medidas que devem ser anunciadas pelo governo americano nesta quarta-feira (2). Fontes do Itamaraty, da Secretaria de Comunicação (Secom) e da assessoria internacional do Planalto relataram ao blog que as decisões sobre tarifas estão sendo tomadas de maneira altamente centralizada dentro da Casa Branca. Segundo essa avaliação, Donald Trump e seu entorno imediato definem os rumos sem grande interferência de seus próprios auxiliares, como o representante comercial, Jamieson Greer, e o secretário de Comércio, Howard Lutnick. A percepção no Itamaraty é de que os diplomatas brasileiros estão praticamente "no escuro" sobre as decisões que serão anunciadas, dada a falta de espaço para um diálogo estruturado. Essa centralização excessiva torna as negociações ainda mais complexas, já que a leitura é que os interlocutores americanos têm pouco ou nenhum poder de decisão, até porque qualquer posição que eles venham a tomar pode ser desautorizada por Trump. "Trump está cercado por terraplanistas econômicos. Não há técnico ou ministro que o convença de nada", resume um diplomata brasileiro. ""Ninguém sabe o que vai acontecer, nem mesmo Wall Street. Trump age como um caudilho latino-americano dos anos 60". No Itamaraty, a leitura sobre Lutnick é de que ele é totalmente submisso a Trump, o que prejudica qualquer avanço nas tratativas com o Departamento de Comércio. Já sobre Jamieson Greer, a avaliação é um pouco mais positiva. Nos últimos dias, o chanceler Mauro Vieira tentou um contato com o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), mas a conversa não ocorreu. O embaixador Mauricio Lyrio, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty, esteve em Washington em busca de avanços, reunindo-se com representantes do Departamento de Comércio, do USTR, com empresários na Câmara de Comércio, com o sherpa americano do G20 e com parlamentares republicanos. O governo brasileiro tem reforçado um argumento-chave nas negociações: "o Brasil não é um problema para os Estados Unidos". Lyrio levou números que mostram que os EUA têm com o Brasil o terceiro maior superávit comercial considerando bens e serviços. Diplomatas têm citado um ditado americano para ilustrar a posição do Brasil: "If it ain’t broke, don’t fix it" ("Se não está quebrado, não conserte"). Um ponto de atrito, no entanto, é a queixa americana sobre o protecionismo brasileiro no setor de etanol. O governo brasileiro entende que as pressões vêm de lobbies de produtores de etanol de milho no Meio-Oeste americano, região que compõe a base eleitoral de Trump. Internamente, o governo Lula considera que um fator positivo nas negociações é o projeto de lei da reciprocidade, que cria um marco legal para lidar com a questão tarifária e dá mais peso ao Brasil na mesa de negociação. Desde o início da crise comercial, o Planalto vinha defendendo o envolvimento do Congresso, algo que a diplomacia brasileira já apontava como estratégia desde o primeiro anúncio de tarifas por Trump. Entenda o que pode mudar com a nova Lei da Reciprocidade Econômica O governo entende que é preciso ter medidas de reciprocidade preparadas como uma carta na manga, mas também que ainda haverá um tempo de negociação antes que qualquer tarifa entre em vigor. "As portas ainda estão abertas", avalia um auxiliar de Lula, reforçando que não há um prazo definido para encerrar as negociações. 'Tarifaço' de Trump: os impactos das taxas sobre aço e alumínio para o Brasil Lula afirma que Brasil tenta negociar com os EUA a respeito do tarifaço de Trump

Abr 2, 2025 - 16:30
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Governo Lula admite dificuldade para negociar com EUA, às vésperas do tarifaço: 'Trump está cercado por terraplanistas econômicos'

Fontes do Itamaraty e Planalto tentam negociar com a Casa Branca para diminuir o impacto sobre as novas medidas que devem ser anunciadas nesta quarta-feira (2). Donald Trump disse que o comércio internacional é manipulado contra os EUA Getty Images via BBC O governo Lula tem encontrado dificuldades para negociar com a gestão Donald Trump às vésperas da nova taxação de produtos importados. O intuito do governo brasileiro é diminuir o impacto das novas medidas que devem ser anunciadas pelo governo americano nesta quarta-feira (2). Fontes do Itamaraty, da Secretaria de Comunicação (Secom) e da assessoria internacional do Planalto relataram ao blog que as decisões sobre tarifas estão sendo tomadas de maneira altamente centralizada dentro da Casa Branca. Segundo essa avaliação, Donald Trump e seu entorno imediato definem os rumos sem grande interferência de seus próprios auxiliares, como o representante comercial, Jamieson Greer, e o secretário de Comércio, Howard Lutnick. A percepção no Itamaraty é de que os diplomatas brasileiros estão praticamente "no escuro" sobre as decisões que serão anunciadas, dada a falta de espaço para um diálogo estruturado. Essa centralização excessiva torna as negociações ainda mais complexas, já que a leitura é que os interlocutores americanos têm pouco ou nenhum poder de decisão, até porque qualquer posição que eles venham a tomar pode ser desautorizada por Trump. "Trump está cercado por terraplanistas econômicos. Não há técnico ou ministro que o convença de nada", resume um diplomata brasileiro. ""Ninguém sabe o que vai acontecer, nem mesmo Wall Street. Trump age como um caudilho latino-americano dos anos 60". No Itamaraty, a leitura sobre Lutnick é de que ele é totalmente submisso a Trump, o que prejudica qualquer avanço nas tratativas com o Departamento de Comércio. Já sobre Jamieson Greer, a avaliação é um pouco mais positiva. Nos últimos dias, o chanceler Mauro Vieira tentou um contato com o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), mas a conversa não ocorreu. O embaixador Mauricio Lyrio, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty, esteve em Washington em busca de avanços, reunindo-se com representantes do Departamento de Comércio, do USTR, com empresários na Câmara de Comércio, com o sherpa americano do G20 e com parlamentares republicanos. O governo brasileiro tem reforçado um argumento-chave nas negociações: "o Brasil não é um problema para os Estados Unidos". Lyrio levou números que mostram que os EUA têm com o Brasil o terceiro maior superávit comercial considerando bens e serviços. Diplomatas têm citado um ditado americano para ilustrar a posição do Brasil: "If it ain’t broke, don’t fix it" ("Se não está quebrado, não conserte"). Um ponto de atrito, no entanto, é a queixa americana sobre o protecionismo brasileiro no setor de etanol. O governo brasileiro entende que as pressões vêm de lobbies de produtores de etanol de milho no Meio-Oeste americano, região que compõe a base eleitoral de Trump. Internamente, o governo Lula considera que um fator positivo nas negociações é o projeto de lei da reciprocidade, que cria um marco legal para lidar com a questão tarifária e dá mais peso ao Brasil na mesa de negociação. Desde o início da crise comercial, o Planalto vinha defendendo o envolvimento do Congresso, algo que a diplomacia brasileira já apontava como estratégia desde o primeiro anúncio de tarifas por Trump. Entenda o que pode mudar com a nova Lei da Reciprocidade Econômica O governo entende que é preciso ter medidas de reciprocidade preparadas como uma carta na manga, mas também que ainda haverá um tempo de negociação antes que qualquer tarifa entre em vigor. "As portas ainda estão abertas", avalia um auxiliar de Lula, reforçando que não há um prazo definido para encerrar as negociações. 'Tarifaço' de Trump: os impactos das taxas sobre aço e alumínio para o Brasil Lula afirma que Brasil tenta negociar com os EUA a respeito do tarifaço de Trump