Abel Braga e o ato de amor que salvou o Inter do rebaixamento
A imagem do treinador Abel Braga chorando no Beira-Rio, após salvar o Internacional do rebaixamento, levou-me à lembrança de uma das mais belas lições de Nelson Rodrigues sobre o futebol. Lição que adotei para a minha vida de jornalista. Dizia o imortal Nelson: “Os entendidos dizem que o futebol é a bola. Não há juízo […]
A imagem do treinador Abel Braga chorando no Beira-Rio, após salvar o Internacional do rebaixamento, levou-me à lembrança de uma das mais belas lições de Nelson Rodrigues sobre o futebol. Lição que adotei para a minha vida de jornalista. Dizia o imortal Nelson: “Os entendidos dizem que o futebol é a bola. Não há juízo mais inexato, mais utópico, mais irrealístico. Eu diria: em futebol, o pior cego é o que só vê a bola… Se o jogo fosse só a bola, está certo. Mas há o ser humano por trás da bola, um ínfimo, um ridículo detalhe. O que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a compaixão.”
Vejam só o caso de Abel Braga. Aos 73 anos, vivendo sua justa aposentadoria no Rio de Janeiro e chorando lágrimas que não se esgotam pelo filho perdido, entendeu que precisava praticar um último ato de amor em sua vida: salvar o Internacional do rebaixamento para a Segundona.
Por ele, tornou vulnerável toda a sua história de vencedor, inclusive seu tamanho de campeão mundial pelo Inter. Por dois jogos, sem custo, entregou-se a uma aventura jamais vista pela alma colorada.
Transportando a lição rodriguiana para o caso, não se pode encerrar a salvação do Inter como obra do acaso, como são tratados resultados coincidentes, como as derrotas que derrubaram Ceará e Fortaleza. Tratar a questão assim é dar razão a Nelson sobre “a objetividade burra” do brasileiro.
Por trás de tudo o que aconteceu e foi visto, estava a alma, o coração e o ideal de Abel Braga, atraindo uma luz superior. Um ato que não se explica pelas leis naturais. São esses atos que criam os heróis místicos.


